segunda-feira, março 10, 2003

APANHEM-NO SE AINDA PUDEREM
Na quarta-feira passada estava farto de não fazer nada e resolvi convidar o meu sobrinho Edgar Augusto para ir ao cinema, lá no centro comercial onde ele finge que trabalha. O rapaz não é muito falador mas, no seu jeito meio retardado, costuma ser boa companhia.
Estavam dois filmes em cartaz: "Radical" e "Apanha-me se puderes". O Edgar, por razões óbvias, queria ver o primeiro. Eu, por razões sentimentais (que mais à frente irei descrever), comprei bilhetes para o segundo.
"Apanha-me se puderes" é um filme de época mas é também um filme da nossa época. Apesar da acção se passar toda nos anos 60, o filme é deliciosamente contemporâneo na sua amoralidade. Já há muito tempo que não torcia tanto para que um criminoso conseguisse escapar às malhas da lei. Na realidade, desde que a Winona Ryder foi apanhada a roubar no Saks Fifth Avenue. A explicação é que o protagonista deste filme não é um criminoso qualquer - é o Leonardo DiCaprio, num registo tão doce que chega a ser enjoativo.
Quais são então os crimes do Leo? Em resumo, todos aqueles que qualquer um de nós gostaria de cometer, se tivesse coragem e imaginação para isso. Por exemplo, sacar quatro milhões e meio de dólares em cheques falsos a filiais bancárias dirigidas por gerentes calculistas e antipáticos; disfarçar-se de piloto de avião para poder viajar à borla para todo o lado; fingir-se de médico para passar as noites num grande hospital a namorar com a enfermeira de serviço; ser contratado como advogado pelo próprio promotor de justiça de Nova Orleães (depois de lhe ter papado a filha); e, "last but not least", passar uma noite com uma lindíssima prostituta de luxo, pagar-lhe com um cheque falso e ainda receber troco. Com um rol destes, é discutível se ele merece uma pena de prisão ou uma medalha de mérito.
O mais curioso é que tudo isto é inspirado pela história verídica de um tal Frank Abagnale Jr., que cometeu estas proezas antes de ter feito 21 anos. Pouco mais ou menos a idade com que o Edgar Augusto conseguiu terminar o 9º ano e entrar para estagiário no Joshua's Shoarma.
No filme, o Leonardo aprende tudo o que precisa saber sobre as suas várias profissões assistindo a séries de televisão. Isso só veio confirmar a minha opinião de que os cursos universitários estão altamente sobrevalorizados e de que em vez de carregar nas propinas o governo devia era repôr a taxa de teledifusão. Quem é que precisa de cursos de Biologia Marinha se tem o "Saber Amar" para aprender a tratar dos golfinhos? Doutoramentos em História - não é preciso, basta qualquer série do Moita Flores. E para tudo o resto, sessões contínuas de "O elo mais fraco" e do "People and Arts".
Tom Hanks faz o papel de Carl Hanratty, o agente do FBI especializado em falsificações e burlas bancárias que toma o Leonardo de ponta e o persegue até conseguir prendê-lo. Neste filme ele prova mais uma vez como é bom actor, construindo um personagem totalmente antipático: é picuinhas, tirânico para os colegas, totalmente desprovido de senso de humor e vive apenas para o seu trabalho. Se fosse mulher seria logo ministra das Finanças. O Tom Hanks só começa a ser ele próprio quando descobre que o burlão que persegue, afinal, não passa de um adolescente. Aí vêm-lhe ao de cima os instintos paternais e nós ficamos na dúvida se ele quer prender o Leonardo ou apenas cortar-lhe a semanada.
O terceiro papel fundamental deste filme é o do pai do Leo, Frank Abagnale, Sr., interpretado - genialmente - por Christopher Walken, um dos maiores actores da sua geração. Aqui ele é um pequeno comerciante que, depois de um começo de vida promissor (se é que ser membro vitalício dos Rotários pode ser assim considerado), se vê cruelmente perseguido pelas finanças só por causa de uma minúscula burlazita fiscal (o filme é amoral, disse eu...). À sua derrocada profissional segue-se o divórcio e o desgraçado acaba sozinho, infeliz e a trabalhar como segurança. Esta parte o Edgar não percebeu - porque é que ele se sentia tão miserável se trabalhar na Securitas é tudo o que o meu sobrinho deseja da vida.
Nathalie Baye, a actriz francesa que recordamos de... deixa ver... umhhh... na realidade, não a recordamos de lado nenhum... interpreta o papel de Paula Abagnale, a mãe de Leo. Em "Apanha-me se puderes" ela dança bem, seduz o marido, fuma muito, trai o marido - uma verdadeira francesa, portanto.
Para tornar o filme ainda mais levezinho, e o Leonardo ainda mais irritantemente simpático, o guião escrito por Jeff Nathanson mostra que o divórcio dos pais é a causa de todas as tropelias que o jovem Abagnale passa a fazer. Quanto a mim isto é um golpe baixo - quem é que não empatiza com um adolescente que vê acabar abruptamente o casamento dos pais? Especialmente se esse adolescente tem os traços perfeitos e os olhos de cachorrinho abandonado do Leonardo DiCaprio...
Mas o Steven é useiro e vezeiro nestas maningâncias, por isso não lhe podemos levar a mal. E está na altura de contar porque é que eu escolhi ver este filme "por razões sentimentais". Quando trabalhei com o Steven no filme "Tubarão", em 1975, era suposto entrar numa cena de praia - aquela em que toda a gente foge da água aos gritos. Como sempre fui um actor "do Método" resolvi bronzear-me para me ver melhor no personagem. Acabei por adormecer ao sol e apanhei um escaldão tão grande que me vi foi no hospital. O Steven - e eu fico sempre comovido quando conto esta parte - mandou-me um ramo de flores e um tubo de vaselina. A enfermeira gostou tanto das flores que eu acabei por dar à vaselina um uso que o Spielberg não tinha certamente imaginado.
Voltando ao filme - o Spielberg optou desta vez por fazer um filme completamente diferente dos seus outros, e principalmente do anterior, o "Minority Report". Se pensarmos bem, "Apanha-me se puderes" e "Minority Report" são exactamente o simétrico um do outro. Um é passado há uns anos atrás, o outro daqui a uns anos; num o herói chora a perda dos pais, no outro sofre a perda de um filho; no primeiro tudo é belo e luminoso, no segundo tudo é sombrio e miserável; neste o Leonardo está com melhor aspecto do que nunca, no outro o Tom até toma drogas. A única semelhança é que ambos passam o tempo todo a fugir e usam o mesmo dentista.
A reconstituição de época é perfeita, pelo menos para quem tenha uma imagem da América dos anos 60 formada com base nos anúncios dos dentífricos Colgate, dos sabonetes Lux e dos descapotáveis Chevrolet. Tudo é muito limpo, muito brilhante, muito novo e muito inocente. Estamos sempre à espera que surja o packshot com o logotipo da Coca-Cola.
Só quando o Leonardo é preso - em França, calcule-se !!! - é que tudo fica de repente baço, sujo e deprimente. No hexágono o Leo tem ataques de tosse, deixa crescer o cabelo e até passa a suar.
O que me leva a uma última consideração - a história do divórcio dos pais do Leonardo presta-se a uma leitura geo-estratégicamente relevante. Senão veja-se: o pai, um verdadeiro americano, tem um amor imenso pela mãe, francesa até mais não. Quando as coisas dão para o torto a mulher arma-se em Chirac e trai-o com o chefe dos Rotários, que não usa bigodes mas tem uma arrogância tipicamente "saddam-husseiana". E o pobre Leonardo, qual secretário-geral da ONU, passa a andar em bolandas para tentar conciliar os dois. É certo que no filme o pai morre, o Leonardo é preso e a mãe e o amante casam e vivem felizes para sempre. Na vida real já não tenho a certeza que tudo se vá passar exactamente assim, mas pronto...
No final do filme eu e o Edgar fomos comer uma pizza de atum. O rapaz, que tem uma fixação na Bárbara Guimarães, perguntou-me se eu achava que ele conseguiria passar por ministro da cultura. Eu disse-lhe que se o José Sasportes tinha conseguido, para ele também seria canja. Ou, como nós dizíamos lá em Hollywood, "it would be chicken soup".